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Por Nira Bessler, lifelong learner, especialista em aprendizagem de adultos e apaixonada pelo tema.

Talvez você tenha pensado em azul ou verde, ou azul turquesa ou verde piscina, ou, como me disseram recentemente numa palestra, azul Tiffany.

Se você espera que eu dê a resposta certa, esqueça. Não há. A forma como você define esta cor foi construída por você, de acordo com suas experiências passadas e suas vivências. Cada vez que você entrou em contato com esta cor, que está entre verde e azul, você ou alguém a sua volta, a nomeou de alguma maneira. Conforme esta experiência foi se repetindo, você estabeleceu a sua percepção de que cor é essa.

Pense agora em um arco-íris. Não há, como em desenhos, linhas que delimitam onde termina uma cor e começa a outra. Existe uma zona de indefinição. Sabia que em alguns países o arco-íris tem seis cores e não sete? E que em algumas culturas verde e azul são tons da mesma cor?Resumindo, estas definições são construções culturais e, em certo grau, individuais, subjetivas.

Será que isso vale apenas para cores?

Creio que não. Podemos aplicar o mesmo raciocínio para outras palavras e conceitos. Um livro, por exemplo. Ao pensar nesse objeto, é bastante improvável que a primeira coisa que venha à sua mente seja a definição do dicionário (que você não deve nem saber qual é). Porque não é assim que aprendemos. Não descobrimos o que é um livro a partir de uma definição pronta, mas sim por meio de nossas experiências.

Quando vemos um livro pela primeira vez, ainda bebês, talvez não saibamos que precisamos focar no livro, que aquele é um objeto distinto, que requer nossa atenção. Junto com o livro, pode vir um colo, uma voz, um sorriso, um cheiro, um gesto (virar a página, por exemplo), um sentimento geral positivo e de calma. Se este padrão se repete, a aprendizagem do conceito “livro” vai incorporando todos estes elementos multissensoriais.

Hoje, um grupo de pesquisadores e neurocientistas acredita que aprendemos desta forma, a partir da busca de padrões nas nossas experiências. Isto é, de regularidades em nós, nos outros e no ambiente. Trata-se da Teoria da Aprendizagem Estatística.

Conforme uma situação vai se repetindo (o contato com um objeto, uma expressão facial, uma música etc), vamos construindo representações dela. Só que nossos sentidos – audição, tato, visão etc. – nunca desligam. Nem nossas sensações interoceptivas, ou seja, aquelas que capturam os estímulos viscerais, internos do corpo, como o coração, intestino e sistema sanguíneo. Assim, o processo de construção de um conceito, a partir de regularidades, abarca estes elementos sensoriais.

Em outras palavras, o livro não é apenas o objeto físico, mas todas as dimensões que ajudaram a moldar este conceito a partir das nossas vivências. O mesmo se dá com outros conceitos e palavras que aprendemos. Eles estão embrenhados das nossas experiências passadas, da nossa história. E também do nosso afeto. Toda memória é afetiva.

Mas o que isso tem a ver com a aprendizagem de adultos?

Quem conhece a andragogia (a “pedagogia” de adultos) pode ter feito a conexão com um de seus princípios: quando se desenvolve um programa para adultos, é preciso levar em conta sua experiência prévia. As teorias da Aprendizagem Estatística e da Aprendizagem no Contexto Afetivo ajudam a explicar por que isso é tão relevante. Se algo não está em nosso campo afetivo, não vamos aprender. Em outras palavras, para aprender, é preciso se importar.

Só que este “se importar” não se limita a uma necessidade lógica, a conceitos racionais.Os sentimentos e a forma como eles nos afetam também vão influenciar nossa aprendizagem. Adultos têm um repertório de experiências amplo e vão usar este repertório para aprender (inclusive as valências afetivas — bom ou mau, positivo ou negativo – que fazem parte da construção pessoal de um conceito).

Resumindo, não somos e não aprendemos como máquinas. Não fazemos download de uma informação. Não somos esponjas que absorvem conhecimento. Não basta estar exposto a uma situação para aprendê-la, como muitas vezes imaginamos em salas de aulas, palestras ou mesmo leituras. Somos mais complexos que isso. Precisamos de envolvimento, de conexão, de sentimentos para aprender. Somos menos racionais do que gostamos de acreditar. Aprender e sentir são mais próximos do que imaginamos.

 

 

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